Se Liga Especial Quaresma 4

Conforme vimos nos textos anteriores, a Quaresma é primariamente um tempo penitencial. Ao
vivenciar a experiência do deserto, o fiel é convidado a refletir sobre suas faltas e implorar pela
misericórdia de Deus, purificando-se para a celebração da Páscoa através de atos de reparação pelo mal
cometido.
No tempo de Moisés, quando Israel caminhava pelo deserto rumo à terra prometida, Deus
estabeleceu que aquele que cometesse uma falta deveria confessá-la, apresentando ao sacerdote uma
ovelha ou uma cabra em sacrifício pelo pecado, e seu pecado seria expiado (Lv, 5:5). Assim, desde a
antiga aliança, o Senhor dá ao seu povo a oportunidade de pedir perdão por seus erros através do
sacrifício oferecido pela mão sacerdotal. Naturalmente, é apenas no Novo Testamento que o verdadeiro
sacrifício é completamente revelado no Cristo pregado na Cruz. Jesus toma o lugar do cordeiro
oferecido em oblação, expiando o pecado do homem; por isso O chamamos Cordeiro de Deus, que tira
o pecado do mundo.
Após Sua ressurreição, Cristo aparece aos discípulos e lhes diz: “àqueles a quem perdoares os
pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo, 20:23). Desta
forma, Jesus transmite-lhes o poder de perdoar pecados em Seu nome. Aqui, Cristo demonstra cuidado
com Seus fiéis, ao deixar-lhes uma forma de reparação de seus pecados que se reproduziria até que
chegasse o momento de sua segunda vinda. Estava assim estabelecido o Sacramento da Reconciliação,
também chamado de Penitência ou Confissão, levando à plenitude o rito levítico juntamente à
Eucaristia.
Na celebração do sacramento da reconciliação, o fiel deve realizar um profundo exame de
consciência e reconhecer suas faltas. Em seguida, deve procurar arrepender-se sinceramente em seu
coração de ter ofendido a Deus. O penitente então procura um sacerdote, que como sucessor dos
apóstolos recebeu do próprio Cristo a faculdade de ouvir os pecados, e enuncia suas faltas em voz alta.
Este ato de humildade ajudará o fiel a ver com maior clareza sua falta e, desta forma, tornará mais
concreto seu arrependimento. O sacerdote, na pessoa de Cristo, oferece-lhe conforto, conselho e, acima
de tudo, o perdão e a cura. É um rito belíssimo, onde o penitente lamenta ter se afastado de seu Senhor,
e este, por sua vez, recebe-lhe de braços abertos como Pai misericordioso.
No Salmo 50, o rei Davi, após o pecado com Betsabé, exemplifica o espírito contrito que se
espera do fiel que busca a Reconciliação. Davi reconhece sua culpa e aceita a sentença que lhe é
justamente aplicada. Porém, simultaneamente, implora a misericórdia do Senhor e pede que crie nele
um novo coração, puro e firme no propósito de se afastar de suas faltas. Davi reconhece ainda que um
mero sacrifício ritual não bastaria para apagar seu pecado, se não estivesse de fato disposto a emendar-se: seu sacrifício deve ser o de um “espírito concrito, um coração arrependido e humilhado”.
Não é difícil perceber que a Quaresma é o tempo ideal para se buscar a Reconciliação. O roxo
que decora o altar está presente também na estola, sinal do poder sacerdotal, que o ministro utiliza ao
celebrar este sacramento. Enquanto tempo penitencial, a Quaresma proporciona o ambiente espiritual
adequado para a reflexão e o arrependimento. Se a sobriedade do tempo quaresmal nos lembra a morte
corporal, quando voltaremos ao pó, o fiel também é convidado a refletir sobre aquilo que causa sua
morte espiritual – o pecado. Contudo, como a Quaresma encontra seu fim na luz gloriosa da
Ressurreição, o pecado deve encontrar seu fim no perdão concedido na Reconciliação.