Se Liga Especial Quaresma 2

Ao período contido entre a Quarta-feira de Cinzas e a Quinta-feira do Lava-pés, a Igreja dá o
nome latino de Quadragésima, ou Quaresma em português. O nome deste tempo litúrgico faz
referência ao número 40, símbolo da experiência da fé pelo povo de Deus no Antigo e no Novo
Testamento.
O número 40 aparece pela primeira vez nas Escrituras na história de Noé, pois o dilúvio
perdurou por um período de 40 dias e 40 noites (Gn 4:7). Esta também foi a duração do jejum de
Moisés no Monte Sinai ao receber os Mandamentos (Ex 24:18). A jornada do povo hebreu até a Terra
Prometida durou 40 anos, bem como os reinados de Saul, Davi e Salomão. O profeta Elias leva 40 dias
para alcançar o monte Horeb (1Rs, 19:8), e a cidade de Nínive experimenta um período de 40 dias de
penitência para obter o perdão de Deus (Jn, 3:4). No Novo Testamento, Jesus se retira ao deserto
durante 40 dias, e após ressuscitar passa 40 dias com seus discípulos antes de ascender aos céus.
Durante a Antiga Aliança, tais períodos foram marcados pela dúvida e pela ambivalência: a
caminhada de Israel foi guiada de perto pelo próprio Deus, que fez Sua morada entre eles, mostrando-se como nuvem e como pilar de fogo, fazendo descer dos céus o maná. Bento XVI descreve este tempo
como o “primeiro amor” entre Deus e o seu povo. Por outro lado, as escrituras também revelam as
tentações que ocorreram durante este período, quando o povo murmura contra seu Deus e deseja
retornar ao paganismo construindo para si ídolos de ouro.
No Novo Testamento, porém, Cristo redime tais experiências através dos 40 dias no deserto. Lá,
Ele também experimenta a tentação mesmo em meio à proximidade com o Pai, e lhe é oferecido um
caminho de poder, sucesso e glória, contrário ao caminho do sacrifício na Cruz. Mas Cristo, esvaziado
de si mesmo através do jejum e armado da Palavra de Deus, triunfa sobre o demônio. A partir daí, Jesus
frequentemente “retorna” ao deserto, buscando momentos de solidão dedicados à oração e à comunhão
com o Pai, antes de retornar ao convívio do povo.
A Quaresma, portanto, é um convite a repetir a experiência de Cristo no deserto: o fiel deve
buscar voltar-se para dentro de si mesmo e, assim, atingir uma intimidade mais profunda com Deus em
seu coração através da oração. Deve lembrar-se de suas falhas e corrigi-las, auxiliado pelo jejum e pela
penitência, e assim condicionar-se a vencer as futuras tentações. Na Quaresma, o fiel entra em um
“deserto” para livrar-se de distrações que tentam desviar-lhe do caminho de salvação pretendido por
Deus, e de lá sai com o espírito fortalecido, o conhecimento de si mesmo e o autodomínio para resistir
às turbulências da fé.
A Quaresma não é um fim em si mesmo; o deserto e a aridez que ele proporciona não devem ser
eternos. Em vez disso, deve ser vista como um caminho de preparação para a celebração da Páscoa e,
em última análise, para a vida eterna. Mais que um tempo de austeridade, a Quaresma é um tempo de
esperança na Ressurreição.
Como ferramentas para concluir essa caminhada, o cristão conta com a leitura da Palavra de
Deus e com outras práticas devocionais, sobre as quais falaremos nos próximos textos. Além disso,
deve buscar o sacramento da Penitência e a seguir o da Eucaristia. Por fim, deve exercer o jejum, a
esmola e pequenos sacrifícios. Estes lhe permitem participar do sacrifício salvífico de Cristo na Cruz e,
assim, também participar da glória de Sua Ressurreição.